julho 4, 2022
Rua Cuiabá, 372, Centro - Camapuã/MS
Musica

Preta Gil sobre os 20 anos de carreira: “Jamais pensei em desistir. Eu lá sou mulher disso?”

Preta Gil é uma potência. Aos 48 anos, ela completa duas décadas de carreira em um meio onde cantoras surgem e desaparecem com a rapidez de um hit de verão. “É insistência”, avisa ela, em entrevista por vídeo, sentada na cozinha de sua casa, no Rio, cabelo preso e óculos de grau. “Passei por muitas adversidades, porque eu não sou só uma cantora que me lancei há 20 anos. Modéstia à parte, de verdade, com muita humildade, sei que a minha presença no mercado, quando eu lancei o primeiro álbum, foi uma bomba na sociedade, na indústria. Uma mulher preta, gorda, bissexual, falando abertamente, e ingenuamente até, da minha vida, e da minha intimidade. Aquilo era muito diferente”, lembra.

Em uma conversa de respostas longas, a quarta filha de Gilberto Gil diz que não pensava em levantar bandeiras. Só queria ser ela mesma. Mas o processo até descobrir quem é Preta Gil foi longo e continua até hoje. “Você vai desenvolvendo uma personalidade que se diz forte, que se diz alegre, que leva tudo no humor, mas que é fachada para uma dor, para rejeição, né?”, assume, explicando que tem quem se espante quando descobre que ela não é apenas festeira. “É uma decepção para muita gente”, diz, rindo. “Eu me lembro de amigos falando ‘você tá deprimida?'”, conta.

A maturidade chegou com muita desconstrução. Preta virou símbolo na luta contra a gordofobia e contra o racismo, temas caros à cantora e pelos quais ela é frequentemente atacada nas redes sociais. Xingada quando posta de biquíni, sempre em fotos sem retoques, avisa que não vai mudar. “A gente vive no mundo da edição de imagens, e eu não edito as minhas fotos há anos, porque se fico com a barriga lisa e sem ruga na cara, na internet vai estar lindo, mas e eu com meu espelho, como vai ser? Como vai ser eu me encarando, se na vida não vai ter filtro ou Photoshop? É frustrante, mas não tem outro jeito”, ensina. Às vezes, sente o peso da luta, mas, sem jogar a toalha – como também nunca pensou em desistir da carreira musical. “Jamais. E eu sou lá mulher disso, gente?”, aponta

Diversidade é uma bandeira que Preta levanta desde o primeiro disco, Prêt-à Porter, mas ativista dos direitos LGBTQUIAPN+ e das mulheres, ela levou uma vaia em 2016, ao dizer no palco, em Salvador, que era mulata. Veio a virada de chave: foi se letrar, como ela mesma diz, entender as nuances do racismo. “De lá para cá eu busquei, por exemplo, escurecer a minha vida, os meus negócios. Tenho muito orgulho de na Mynd a gente ter mais de 50% de funcionários negros”, diz, sobre a agência de marketing digital que fundou em 2017. No casting, entre outros nomes, a cantora Pabllo Vittar, a humorista e influencer Pequena Lô e o ator Yuri Marçal, além do marido, Rodrido Godoy, e Francisco Gil, de 27 anos, seu filho com Otávio Müller.

“Eu sempre fui uma mulher que gostei de potencializar as existências, o talento, e a arte de outros artistas”, diz ela, ressaltando a representatividade entre seu agenciados, com pessoas negras, LGBTQIAPN+ e PCDs, e grupos tradicionalmente menos procurados pelo mercado publicitário, como, por exemplo, influencers nordestinos. O lado empresária de Preta, no entanto, vem bem antes da Mynd; ela começou a empreender aos 20 anos e, aos 28, ao abraçar a música, deixou para trás a bem-sucedida Dueto Filmes.

Agora prepara um disco, ainda sem nome, no qual, pela primeira vez, trará canções compostas em parceria, feitas para o trabalho. É que Preta, acreditou, neste tempo todo, que tinha nascido apenas para ser intérprete. “Achava que era incapaz mesmo. Tomei coragem de colocar meu público sentado num teatro para ouvir minhas canções sem aquela síndrome do tira o pé no chão”, conta, sobre o show celebrando o marco na carreira. “Tem uma história com meu pai, que é emblemática. Falei ‘pai, me dá uma música para eu gravar no meu primeiro álbum’. Ele disse ‘vá procurar a sua turma!’ (risos). E não deu outra, busquei a minha turma, tenho um repertório muito rico nesses 20 anos de carreira”, adianta.

O Brasil é muito difícil para quem quer fazer e viver de arte. A que você credita sua longevidade?
Insistência. A uma vontade enorme de viver do que eu amo, do meu sonho, e não desistir, porque, de fato, não é fácil. As adversidades são muitas, em todos os aspectos. O artista em si tem essa angústia do realizar. É complicado, mas é com muito amor. Não tem outra escapatória para quem tem na sua essência, na sua alma, a arte como um guia para a vida. Então é persistência, muito trabalho, encontrar os parceiros certos, não desistir. É, nos momentos de fragilidade, se fortalecer, buscando se valorizar, o que é muito difícil porque o tempo inteiro somos estimulados a nos colocarmos para baixo. Principalmente se a gente entra em uma onda de olhar o mercado ou se comparar, o que é frustrante. Cada artista é único. Nós somos incomparáveis. Quando a gente entende isso, vira um foguete.

Sua carreira de cantora começou aos 28 anos. Você se boicotava?
Com certeza. Desde que eu me entendo por gente, meus familiares sempre disseram: ‘você é uma artista, vai ser cantora’. Eu era daquelas que com 5 anos, botava meu maiozinho e imitava as Chacretes, a Gretchen, as Frenéticas. E aí você vai crescendo, principalmente em uma família tão emblemática quanto a minha, e vai comprando umas paranoias que vêm muito mais do externo: ‘Como é ser filha do Gil? Como é ser afilhada da Gal Gosta? Como é ser sobrinha do Caetano Veloso?’ Para mim, sempre foi tão natural. Mas, em algum momento, alguém vai colocando as inseguranças em você. A sociedade é feita disso, de ir colocando inseguranças e repressões em cima de nós. Cabe a nós comprá-las ou não. E algumas eu comprei e fui me distanciando de mim mesma.

Até se reencontrar.
Sim. Você vai se afastando, buscando outras coisas. Tem insegurança, tem medo. Fui empurrando, quando vi estava com 28 anos. Decidi romper aquele ciclo e começar minha carreira e meus experimentos artísticos. E graças a Deus, né, porque a vida é uma só, a gente só tem essa para ser feliz. É muito triste quando você passa uma vida inteira frustrada, fazendo algo que não quis, mas que acabou fazendo por mil imposições. E aí eu consegui, no meu primeiro álbum, quando resolvi romper com tudo. Agradeço muito aos meus orixás, aos astros, ao meu irmão Pedro, ao retorno de Saturno. Foi tudo uma conjuntura que me fez voltar para os trilhos aos 28 anos.

Como era essa conjuntura?
Eu tinha sonhos muito recorrentes com meu irmão Pedro [morto em um acidente de carro em 1990, aos 19 anos], a gente no palco do Rock in Rio, no palco com meu pai, cantando… Tinha um simbolismo, que obviamente eu não tinha maturidade para entender. Mas levava esses sonhos para meu terapeuta, que interpretava, junto com minha astróloga. Ela que me falou ‘olha, vai sacudir, você vai começar a passar pelo retorno de Saturno, sua vida vai mudar tanto que é capaz de você mudar de profissão’. E eu ‘imagina, mudar profissão’. Eu era uma produtora muito bem-sucedida, tinha empresa de credibilidade no mercado, dois escritórios, mais de 200 parceiros. Era muito doido eu romper com aquilo tudo.

Mas rompeu.
Não deu outra. Quando eu juntei as peças, com meu terapeuta, com minha astróloga, com minha mãe Oxum, que vinha nos sonhos falar comigo, eu tive a lucidez e a sensibilidade de [fazer a ruptura]. Porque muitas vezes a gente recebe sinais da vida e vai passando por cima. Mas eu tive sorte, mesmo, de ser resgatada por esses três aspectos: o psiquê, o emocional, que falou mais alto, que me conectou com meu irmão; o astral, dele se conectar comigo; o astrológico e o espiritual. No meu céu estava escrito: você vai ser feliz. Mesmo que você tente se confundir, a gente vai dar um jeito de você ser feliz.

“No meu céu estava escrito: você vai ser feliz”

Nesse intervalo entre imitar as Chacretes e a Gretchen e se lançar como cantora, você já tinha alguma ideia de que tipo de arte queria criar?
Não. Minha primeira imersão com a arte começou com a música, eu dublava discos brincando na sala de casa. Antes de estudar canto fui fazer teatro, fui para a CAL, Tablado, fiz teste para Sex Appeal [minissérie que revelou Camila Pitanga, Carolina Dieckmann, Luana Piovani e Danielle Winits] e fugi. Cantar era uma coisa de que eu tinha medo, mas a Marina Lima, que é minha prima, me chamou para o ensaio de um show dela e me deu o microfone para eu cantar. Fiz uns backing vocals de brincadeira, e a Marina ‘você vai fazer meu show, tem uma voz linda’. Saí fugida, nunca mais voltei (risos). E ela entendeu, ‘tudo bem, você está insegura ainda, mas você vai começar a fazer aula de canto’. Mas eu não sabia o que que queria cantar.

Não?
Não. Sempre fui eclética, nasci anos 1970, no meio de uma família muito de MPB, mas em uma efervescência do rock nacional nascendo, Frenéticas bombando. Ouvia Jackson do Pandeiro, assistia Chacrinha. Eu gosto de misturar ritmos essencialmente brasileiros. Meu primeiro álbum era com uma turma de amigos de infância, que eu falei ‘galera, pirei, vou cantar, não aguento mais’. E eles ‘mas o que você quer cantar?’ ‘Não sei’. A Ivete Sangalo me emprestou o estúdio dela, tinha avisado aos meus sócios que ia sair da empresa, foi um ano de aviso prévio. Cheguei no estúdio com anotações, tinha, Mexe Comigo, da Baby do Brasil, aí embaixo tinha Baba Baby, da Kelly Key. E as pessoas ‘você vai cantar Baba Baby?’. Meu repertório então tem uma base de MPB que flerta com o pop, porque eu amo essa junção. E assim eu venho fazendo a minha música.

Nesses 20 anos você pensou em desistir em algum momento?
Jamais. Eu lá sou mulher disso, gente? Nunca pensei em desistir, não. Passei por muitas adversidades, porque que eu não só uma cantora que me lancei há 20 anos. Modéstia à parte, de verdade, com muita humildade, eu sei que a minha presença no mercado, naquele ano de 2003, quando eu lancei o primeiro álbum, foi uma bomba na sociedade, na indústria. Uma mulher preta, gorda, bissexual assumidamente, falando abertamente, e ingenuamente até, da minha vida, e da minha intimidade. Aquilo era muito diferente. A gente não via muito aquilo, não tinha nem os termos que tem hoje, como empoderamento. Era só eu querendo ser eu. Eu estava ali, presa no armário há 28 anos. Abri a porta, eu saí como uma louca, correndo, querendo me mostrar, querendo que as pessoas me conhecessem, mas sem a menor noção de onde eu estava me metendo.

“Quando eu lancei o primeiro álbum, foi uma bomba na sociedade. Uma mulher preta, gorda, bissexual…”

Como assim?
Porque eu era a Pretinha no mundo da Tropicália, e achava que todo mundo era como a minha família: que as pessoas não julgavam os outros, que podiam ser quem elas eram, livres, e respeitavam umas às outras. Estava despreparada para uma sociedade que à época eu falava que era careta, mas, não, era uma sociedade conservadora, machista, misógina, racista, homofóbica. Hoje a gente tem nome para tudo aquilo. Mas, lá atrás, eu falava: ‘meu Deus, mas por que que estão criticando o meu corpo, mas por que ninguém ouviu meu álbum, só quer saber o que que o meu pai achou de eu posar nua?’ Foi um choque. E ali começaram algumas rupturas, não só na minha vida, mas na sociedade de um modo geral, que a gente vem desconstruindo ao longo desses 20 anos. Não foi só a cantora. Quando a gente se abre desse jeito, se impõe desse jeito, não deixa de ser um ato político.

De que forma?
Quando eu falava sobre tudo isso, muitas vezes, se sobrepunha à música. ‘Mas e o que que ela está cantando, a gente quer ouvir mais o que que ela tem para falar. Mas e o show dela? Não, mas a gente quer mais é a entrevista polêmica dela, falando, enfim, o que for’. E isso para mim foi muito chocante. Quantas vezes eu discuti com jornalista que vinha me entrevistar, logo que lancei meu álbum, sem sequer ouvir uma música, mas queria saber por que eu posei nua. Essa coisa do corpo da mulher sendo objetificado e um monte de coisa que, hoje, a gente percebe. Mas, tá aí, passaram-se 20 anos, eu consegui driblar tudo isso, muitas vezes, com muita dor, com muito sofrimento, mas com muito apoio. E com esse apoio dos meus fãs, amigos, e família, pude me resgatar e fortalecer a minha autoestima, o meu caráter. E saber que não era a errada da história, que errada era a sociedade, essas pessoas que estão aí até hoje, que são pessoas não evoluídas em vários aspectos.

Você estava certa.
Eu estava certa e o certo era eu lutar por mim, pela minha existência. Entendi que eu não estava lutando só por mim, quando depois de toda essa enxurrada de preconceito, começou a emergir o amor. Porque primeiro vem a opressão, a enxurrada de críticas, e depois você começa a ver a flor: ‘Preta, eu li sua entrevista, eu vi você na Hebe, você estava linda, e eu queria dizer que eu botei um biquíni e fui para a praia. Preta, mas você é muito linda, você me inspira’. Quando eu comecei a ver isso tudo acontecer, entendi que essas bandeiras que levantei para me defender também estavam indo para mãos de outras pessoas que se sentiam representadas pela minha fala, pela minha posição, pela minha existência. E isso foi muito forte. Então, eu costumo dizer para cada mulher que ajudei a se libertar, a se amar, a se respeitar, valeu todos os haters, todo o ódio que eu recebi nesses 20 anos.

“Para cada mulher que ajudei a se libertar, valeu todo o ódio que eu recebi nesses 20 anos”

Em Sou Como Sou, canção sua de 2012, você já criticava os padrões dizendo ‘tem que ser branco, tem que ser alto, tem que magro, tem que ser hétero (…) sou como sou, não quero me encaixar”. Consegue ver mudanças? A diversidade é realmente mais aceita?
‘E nada de cabelo branco’, tudo que eu tenho. Com certeza, isso é visível na sociedade e em todos os ambientes. As pessoas foram se fortalecendo enquanto indivíduos e principalmente no coletivo. Quando a gente se junta, fica mais forte. A comunidade LGBTQUIAPN+ se juntou, as mulheres gordas, as mulheres pretas, isso tudo foi fazendo com que se tivesse mais visibilidade, voz, espaço. Ainda existe racismo, gordofobia, sexismo, mas temos uma sociedade que evoluiu e se fortaleceu, que não quer mais que ditem aquilo que ela pode ou não fazer, quem deve ou não amar. Você vê uma mudança no mercado publicitário, no meio artístico, em todos os ambientes, o que é revolucionário. Mas isso é fruto de uma galera que resiste e que luta e que não para.

Você luta contra o racismo, a homofobia, a gordofobia, a transfobia há muito tempo. Não cansa?
Claro. A capa de militante tem uma hora que ela cansa, porque a gente tem que se colocar e entender que somos atravessadas por tudo isso, então a gente sofre. Dói. Quando a gente vê algo acontecer com alguma pessoa, ou com a gente mesma, sofre. Isso gera gatilhos com os quais temos que saber lidar. Mas nem sempre estamos fortes para defender [os outros] ou nos defendermos. Muitas vezes a gente quer só calar e viver, e aí vou na minha rede de apoio, nas minhas amigas, nas pessoas que acabam me fortalecendo para eu não desistir. Mas é complicado, a gente não precisar ter opinião o tempo todo sobre tudo. Não precisa o tempo todo estar se colocando. A branquitude que impôs isso para a gente, o racismo, todas essas opressões vêm dela. Nós estamos aqui absorvendo isso há muitos ano. Temos o direito de viver, de ter uma vida onde essas dores não nos atravessem. Mas é impossível (ênfase).

Porque é o tempo todo.
Todos os dias na internet, todos os dias nos jornais a gente vê uma história de um menino que foi preso injustamente de uma doméstica que foi agredida por uma mulher na porcaria do seu trabalho. Nem sempre a gente está forte. Eu posto uma foto e vai ter um falando ‘ah, ridícula, se achando, botou cropped para quê, para aparece essa banha’. E eu só quero ser eu, colocar uma roupa que eu me sinta bem e ser feliz, eu quero sair com marido para me divertir e aí posto uma foto com ele, vem lá ‘ah, esse casamento aí não sei, não, como ele pode amar ela, um homem tão bonito, como ele pode estar do lado dessa mulher, só pode ser interesse’. Não tem um (ênfase) dia de descanso. Você aprende a lidar com isso, mas somos humanos. Posso estar num dia mais frágil. Se entro na minha rede e leio um comentário desses pode ser muito danoso. Busquei formas de me fortalecer. Eu só penso em quem não consegue. Imagina uma pessoa que não tem força na sua autoestima, no seu intelecto, no seu emocional, e lê um negócio desses. Isso mata, literal

A mulher, de uma maneira geral, nunca está à altura do que a sociedade ‘quer’ dela. Você já deixou de se sentir inadequada?
Desde sempre [me senti inadequada]. Primeiro eu me chamo Preta, isso já era ‘Preta, Greta, Brenda?’. Sempre tive que defender o meu nome. Segundo, sempre eu e meus irmãos éramos os únicos negros da escola, estávamos inseridos em um espaço de maioria branca onde éramos os únicos pretos. Aí são milhares de formas de racismo, muitas vezes velado, muitas vezes estrutural, desde a festa junina da escola onde eu sempre quis ser a noiva e nunca fui. Nunca entendi isso e aquilo me magoava muito. Eu falava com a professora ‘eu quero’, tinha a roupa mais bonita, era a mais animada da quadrilha, mas nunca fui a noiva.

E isso deixa uma marca…
Isso é algo que você entende com muita terapia ao longo da vida: você vai desenvolvendo uma personalidade que se diz forte, que se diz alegre, que se diz humorada, que leva tudo no humor, mas que é tudo fachada para uma dor, para rejeição, né? Uma vida de rejeição… Na adolescência eu apaixonada pelos meninos da escola e nunca queriam namorar comigo, era sempre com as meninas brancas, obviamente. E eu fui desenvolvendo o meu intelecto e entendendo que eu tinha que pegar eles por um outro aspecto. Mas muitas vezes depois de adulta eu falei não queria ter desenvolvido nada, não, gente, eu só queria que eles olhassem para mim e gostassem de mim e me achassem bonita.

“Eu só queria que eles olhassem para mim e gostassem de mim e me achassem bonita”

Só queria dar beijo na boca, como as outras meninas da escola, por exemplo.
Isso, eu queria dar um beijo na boca, não queria ser inteligente, não queria ser legal, não queria usar artifício nenhum. E isso é muito difícil, porque você constrói sua personalidade em cima desses arquétipos e quando você vê isso está tão estruturado que você acha que é aquilo. Pensa que é aquela fortaleza, aquela pessoa engraçada, a que vai sempre fazer as pessoas rirem, felizes e alegres. Eu não queria isso. Eu queria ser eu só. Olha como é difícil: você passa uma vida inteira para descontruir uma coisa que construiu na sua infância e na sua adolescência como mecanismo de defesa, achando que aquilo é personalidade. Mas aquilo não é personalidade, é só uma mazela da sociedade racista que obriga muitas vezes você a montar uma casca, uma máscara, uma capa para sobreviver a essas

E quem é a Preta?
Pois é, ela não é isso. Eu hoje, depois de muita terapia, de entender [essa construção], eu sou uma mulher que tenho sim, não vou negar, uma personalidade alegre. Gosto de estar cercada de amigos, de festejar, de brincar. Mas eu não sou essa fortaleza, não sou essa mulher-maravilha, não sou essa gaiata o tempo todo. Sou uma mulher calma, cada vez mais serena, uma avó, mãe, empresária. Sou séria nas coisas que faço, e isso surpreende muito mais as pessoas, inclusive. É uma decepção para muita gente; quantas vezes já fui parada nas ruas ‘nossa, mas achei que você era mais simpática’ e eu ‘que você quer, querido, que eu saia com abacaxi na cabeça?’. Uma época da vida eu era a Preta amiga de todo mundo, a engraçada que fazia e acontecia, e eu falei ‘cansei, eu quero agora ser eu e ser eu tem isso também, mas tem aquela que tá cuidando do jardim, da casa, da saúde, da neta, do filho, da carreira, das empresas, dos negócios, com calma, com discrição, na minha’. E isso é muito prazeroso também.

Algumas pessoas se afastaram quando você abandonou esse personagem ‘alegre’?
Foi um choque para muita gente. Eu me lembro de amigos falando ‘você tá deprimida?’ (risos). Eu falo ‘não, gente, não tô nada, deprimida, eu tô ótima’. Só que não preciso chegar gritando ou com uma sirene ligada num lugar. Eu quero conversa séria, falar de coisas mais profundas. Já tem um tempo essa transformação. Ela vem a cada ano ficando mais séria, mais de verdade. Ao mesmo tempo se deu um processo de descobertas a respeito de mim mesma, dentro dos meus processos de terapia e de letramento, de entender quem eu sou, de entender a história da minha ancestralidade, da minha negritude. Os assuntos comigo ficaram mais sérios, sabe. Acho que hoje em dia meus amigos já gostam dessa profundidade. Sou uma mulher que fala de coisas mais profundas, de libertação, desconstrução, racismo, LGBTQUIAfobia, transfobia, e luto cada vez mais. A transição foi bem sucedida para quem de fato me ama e gosta de todas as versões que eu tenho

Há algum tempo você vem falando – e educando as pessoas – sobre as nuances do racismo, como a passabilidade…
A gente vive o mito da democracia racial no Brasil. Em 2016, tomei uma vaia no Teatro Castro Alves, em Salvador, que foi um divisor de águas da minha vida.

Por dizer que era mulata?
Sim. Foi um choque. Não sabia que eu não podia mais me autoreferir como mulata porque mulata eram os filhos das mulas e mulas eram as escravas abusadas pelos seus donos e do fruto desse estupro nasciam os mulatos e as mulatas. Eu nunca soube disso, que está registrado em vários documentos históricos da comunidade negra, mas isso foi apagado para nós. Quando eu fui entendendo a história, o projeto de miscigenação proposto para o Brasil lá atrás, como praticamente embranquecimento do Brasil, eu fui estudando lendo Djamilla, Carla Akotiren…Fui entendendo que eu era uma mulher mestiça, filha de branca com preto, com a pele mais clara, com muitas vantagens sociais por conta do meu pai ser famoso.

“Fui entendendo que eu era uma mulher mestiça, filha de branca com preto, com a pele mais clara, com muitas vantagens sociais por conta do meu pai ser famoso”

Tais como?
Se você tem um negro famoso, ele vai passar, ele vai ser mais aceito. Fama é algo que dá passabilidade no Brasil. Você pode até sofrer algum tipo de racismo, mas chegou aquele jogador de futebol, ele é maravilhoso, nossa, aquele cantor negro, mas aquele juiz negro, ele é juiz, tão inteligente. Meu cabelo é menos crespo, minha pele mais clara, isso tudo foi fazendo com que eu transitasse melhor. Aquilo foi foi mexendo muito comigo, para eu entender até que ponto eu fui usada, eu fui de fato amada, até que ponto eu era a única preta do rolê, talvez porque eu fosse aparentemente ‘menos preta’. Dessas reflexões e desses altos e baixos com a minha própria autoestima escrevi a peça Mais Preta que Nunca. Entendi que tinha um interesse de algumas partes de me embranquecer e eu me recusei a apagar minha negritude, a me embranquecer. Sou uma mulher mestiça, mas eu sou preta, sim. Posso ter tido menos agressões que outras mulheres mais retintas, mas sei o que eu passei. Depois de toda essa conscientização, desse letramento, eu não saí embranquecida, eu me saí mais preta do que nunca.

E essa Preta empoderada e letrada assusta muito mais que aquela Preta gente boa personagem?
Ela traz conhecimento. Num primeiro momento pode ser assustador, mas é gostoso quando a gente tira a venda dos olhos. Não sou só eu que estava cega. A sociedade está cega. Até para os aliados, para os meus amigos brancos, quando eu começo a falar sobre isso assusta e pode parecer radicalismo. Mas eles refletem, voltam, conversam. É libertador. A gente precisa letrar os brancos também para que eles entendam como precisam se comprometer nessa luta. Se fala muito de ser antirracista, anti-homofóbico, mas é na prática, não é na teoria. Não é ‘ah eu tenho vários amigos negros e gays’, mas e aí, olha pro seu lado, para sua vida, na sua empresa, no seu trabalho, no seu círculo de amigos, quantos amigos trans você tem, quantos amigos gays podem se beijar na frente de todo mundo sem problemas

Nas redes sociais existe uma brincadeira: alguém se destaca na internet e a Mynd vai contratar. Qual o critério?
A gente tem pilares dos quais a gente não abre mão: diversidade, o respeito às minorias, a inclusão. Óbvio que a gente usa essa brincadeira que a internet criou ao nosso favor. A grande motivação é transformar vidas é potencializar vidas: temos um squad (time) de pessoas pretas enorme, o nosso squad de pessoas LGBTQUIAP+ é enorme, tem o de pessoas PCDs… O mercado está fechado para muita coisa ainda, então o nosso trabalho é ir mostrando o que a gente ainda não conquistou. Não é só sobre ter eu ou uma famosa ali, mas e as pessoas que não são contempladas, que foram invisibilizadas o tempo inteiro por esse mercado? Então a gente tem um núcleo de influencers nordestinos que muitas vezes não estão no radar das empresas.

Os últimos dois anos foram bem difíceis, e a classe artística também foi muito afetada. Além das perdas pessoais, como empresária você tem muita gente que depende de você. Como você lidou com essa responsabilidade?
Vivi um grande luto. Não poder trabalhar, não poder continuar dando trabalho e o sustento para um ecossistema que é muito maior que eu, e que movimenta milhões de empregos. Buscamos meios de nos mantermos sãos no meio disso tudo e de alguma forma amparando [as pessoas] da maneira que eu pude os meus. Isso aconteceu no que diz respeito a shows principalmente e na contramão disso tudo, com a Mynd as ações na internet se intensificaram e conseguimos empregar muito nesse nosso outro negócio. Mas foi um luto que eu vivi, pela falta do palco, não poder cantar, exercer a profissão… Eu me calei.

Fora o luto na sua vida pessoal.
Sim. Teve as perdas: o melhor amigo [Paulo Gustavo]; uma vida pulsante de um homem incrível, que por uma questão de tempo poderia ter sido salvo pela vacina…. A minha avó, que apesar de ter 96 anos também poderia estar aqui se tivesse dado tempo da segunda dose fazer efeito ou ter tomado a terceira…. ‘Ah, Preta, mas ela já era idosa’. Era, mas morrer de Covid é de uma falta de dignidade, a gente não poder se despedir, não ter enterrado, é de uma dor… Não sara. São dois anos de luto. Venho nesses últimos três, quatro meses, buscando me reinserir de uma forma mais ativa, voltei a fazer show. Fui muito prudente para sair desse buraco, porque a gente vai ter que encarar e continuar. A vida está aí. Estou com saúde, sã e tenho que viver com essas dores, dando mais valor ainda à minha existência, à minha família, ao meu trabalho, a tudo, para seguir o meu legado e minha existência

O seu disco comemorativo dos 20 anos de carreira terá canções suas. Por que os outros não tinham?
Eu acho que era muito medo, de ser filha de uma grande compositor e eu sou afilhada da Gal Costa que é aquela cantora que imortalizou grandes clássicos de compositores como meu pai, Chico Buarque, Milton Nascimento, Djavan. Eu não fui provocada para isso, mas agora fui e o efeito foi maravilhoso.

Você tinha medo da comparação?
Não era medo. Acreditava que era incapaz mesmo, que meu lugar era de intérprete apenas. Eu tenho uma música, chamada Mal de Amar, que está no meu primeiro álbum, Prêt-à Porter, que vai estar no meu show. São 20 músicas desses meus 20 anos de carreira e são só músicas minhas, do meu trabalho autoral com músicas de outros compositores, que estão nos meus álbuns e não músicas dos outros ou de enfim. E isso é um processo corajoso porque depois de 20 anos eu tomei coragem de colocar meu público sentado num teatro para ouvir minhas canções sem aquela síndrome do ‘tira o pé no chão’ (risos). Aí eu volto e resgato o meu repertório autoral depois de 20 anos. Por isso que eu digo para essa geração nova: acreditem no seu repertório autoral, cantem as suas músicas, cantem as músicas que estão nos seus discos, porque é libertador assim e eu, graças a Deus, depois de 20 anos, depois de maturidade, eu estou me dando esse presente e dando esse presente para os meus fãs e é bem corajoso: tem música no show que eu nunca cantei e agora eu vou cantar, tomei coragem

Leave feedback about this

  • Quality
  • Price
  • Service

PROS

+
Add Field

CONS

+
Add Field
Choose Image
Choose Video