julho 2, 2022
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Esporte

Miguel Ángel Ramírez e a importância de olhar processos antes de pessoas

Miguel Ángel Ramírez foi demitido do Charlotte FC. Foram apenas 18 jogos no clube, projeto do mesmo dono do Carolina Panthers (NFL) e que disputou sua primeira Major League Soccer em 2022. Os resultados não foram bons: apenas 7 vitórias e uma derrota, por 3 a 1, na ida das oitavas de final da Copa dos EUA.

Chama a atenção como Ramirez também foi mal no Internacional, onde foi demitido após 100 dias e não conseguiu vencer o Gauchão. Diante disso, fica a dúvida: como que um técnico tido como o melhor da América após vencer a Sul-Americana com o Del Valle pode ter tido trabalhos tão ruins?

Vale pensar essa pergunta de um outro modo: e se Ramirez é exatamente o mesmo, com as mesmas qualidades, mas o que mudou foram os processos e a organização nos três clubes por onde passou?
Essa pergunta leva a uma reflexão muito necessária no futebol brasileiro. Um dos erros mais graves quando falamos de treinadores e seus trabalhos nos é pensar que tudo o que o treinador faz e os resultados que conquista é fruto apenas da sua qualidade individual. De sua competência interna. Do seu talento. Do seu toque de midas ao substituir e mandar o time a campo. Basta ver como Jorge Jesus foi tratado em alguns meses no Flamengo, como um verdadeiro messias.

Esse olhar essencialmente individual e até mítico é equivocado. Ignora que técnicos não trabalham sozinhos. Além da comissão técnica, eles respondem a um presidente ou diretor de futebol. Fazem parte de uma verdadeira teia que emprega muita gente, de nutricionistas e pessoas da comunicação. Falando apenas do trabalho em campo, o treinador não faz nada sozinho. Ele pode tomar as decisões, mas é cercado de pessoas que o ajudam a treinar o time, escolhem quem entra a campo, ajudam a formar um modelo de jogo (um estilo), aprimoram jogadores e muito mais.

Tudo isso que você leu se chama contexto. O entorno do treinador. Se um técnico chega com muito respaldo, coordenadores e diretores capacitados para avaliar seu trabalho e uma organização muito clara, com objetivos e metas a serem cumpridas, seu trabalho de campo certamente será melhor, pois além de ser “aprimorado” por quem o avalia, recebe também o reforço de diversas áreas, como preparação física, análise de desempenho e mais.

É justamente o caso do Independiente del Valle, onde Ramirez fez sucesso. Fundado em 2007 pelo empresário Franklin Tello, o clube nasceu como SAF (Sociedade Anônima) e tinha o objetivo de formar jovens, com dois fins: abastecer o time principal e gerar vendas ao exterior. Para cumprir o objetivo, estruturação total das categorias de base: todo mundo jogava da mesma forma que o time principal. Uma comissão de analistas avaliava quem estava melhor preparado para avançar de categoria até chegar ao principal.

Ramírez chegou para treinar a equipe sub-18, ainda em 2018. Veio credenciado pela Aspire Academy, uma liga de formação de treinadores que visa aprimorar e buscar jovens jogadores e tem como filosofia base o Jogo de Posição, que você leu tantas vezes aqui no blog. Quando Ismael Rescalvo foi para o Emelec em 2019, Ramirez assumiu o time principal por alguns motivos: ele seguia a mesma metodologia, já conhecia os jogadores e poderia fazer a ponte entre base e profissional.

Um clube diferente para a realidade da América do Sul, mas muito parecido para a realidade de onde eu vinha. E aqui é que está o paradoxo da coisa. É um clube diferente para a realidade da América do Sul: é uma realidade que não é fácil, onde os clubes não nadam em dinheiro, não são muito organizados e não olham muito para a formação. E encontro um clube parecido com aquele onde eu estava. Em termos de estrutura, de filosofia, de metodologia e com uma forte aposta na formação.
— Renato Paiva, técnico português do Del Valle
Com todos os processos mastigados, será que Ramirez era de fato “bom” sozinho, ou apenas encontrou um clube que facilitou seu trabalho? Que dava maiores condições para ele focar no que realmente dominava, e deixava o que ele não dominava com outras pessoas? Que dava um contexto que facilitava seus pontos fortes como profissional?

Os questionamentos foram respondidos no Internacional. Seu trabalho durou 100 dias e não obteve resultados, nem desempenho. Ramirez era o mesmo dos tempos de Del Valle. O que mudou foi justamente o entorno: um elenco mais envelhecido, longe de ser formado na base; um clube com categorias estruturadas, mas ainda sem as muitas “pontes”. Contexto que exigiu competências diferentes, como liderança, jogo de cintura, política…

A esquizofrenia do futebol brasileiro
Não olhar o contexto do clube e jogar tudo nas costas da competência ou “talento” do treinador cria uma esquizofrenia alimentada diariamente em meses redondas, pelo torcedor e até pelos próprios dirigentes: um ciclo de demissões e culpas que endivida clubes e jamais leva algo de bom, apenas a derrotas e mais derrotas.

Um exemplo claro foi a chegada de Tiago Nunes no Corinthians. Era janeiro de 2020, e Tiago Nunes era tido como o melhor treinador brasileiro após o sucesso de Jesus e Sampaoli. Foi contratado pelo trabalho no Athletico, pelo qual foi vencedor da Copa do Brasil e da Sul-Americana jogando um futebol propositivo e vistoso. Na época, os torcedores do Corinthians clamavam por um jogo com mais posse.

Nunes recebeu Luan como principal contratação e foi elogiado pela qualidade nos treinamentos. Mas entrou em conflito com o elenco com muitas mudanças, algumas bruscas, como horários determinados para refeições, proibição de visitas no CT e o não aviso dos relacionados ou não para o jogo. No Paulistão, tentou mudar a forma do time – e o motivo de não ter conseguido está no começo da frase: apenas 19 jogos de Paulistão, com um elenco que não foi montado por ele.

Se Tiago Nunes era bom, porque não fez sucesso no Corinthians e depois no Grêmio e Ceará? Não é ele que era bom e depois virou ruim, e se ganha no outro dia vira bom novamente. É o contexto que mudou. Vale lembrar que, assim como Ramírez, Nunes chegou no CAHP para treinar primeiro a base e depois foi para o profissional. Estava num clube que jogava da mesma forma há anos, com jogadores vindo da base e contratados por causa daquele modelo de jogo.

Nenhum treinador após Tiago Nunes teve sucesso no Corinthians. Mancini e Sylvinho foram eleito culpados. Vitor Pereira começa a entrar em choque e é sempre questionado (mesmo sendo português). De quem será a culpa pela incapacidade do clube de organizar processos como era na época de Mano Menezes e Tite?

Processos são mais importante que uma só pessoa
O sucesso de um treinador está totalmente ligado ao processo que ele está envolvido. Técnicos bons fazem trabalhos ruins se estiverem num ambiente caótico e nebuloso. Técnicos ruins fazem trabalhos bons trabalhos se estiverem num ambiente organizado, com processos e metas claras.

Logo, não faz sentido achar que o treinador é o tempo todo bom ou ruim, ou que isso muda conforme os resultados. Rogério Ceni era o melhor treinador brasileiro no momento quando chegou ao Flamengo e virou “piada” quando saiu. Felipão era bom quando ganhou o Brasileiro e virou ruim após chegar ao Grêmio. Já percebeu que nunca muda? As culpas vão e voltam, as discussões são as mesmas…

A lição é uma só: precisamos falar menos de pessoas e mais de processos.

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